sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Problemas Ecológicos e o Juizo Ético - Os Principais Problemas Ecológicos e a Ética 1:




Em nosso mundo atual problemas ecológicos diversos começam a inquietar-nos como pessoas. Problemas como desmatamento, a poluição, o grande crescimento populacional, a desertificação, as queimadas, o efeito estufa, a chuva ácida, a destruição da camda de ozônio, a miséria, a fome e o próprio sentido do progresso e do desenvolvimento que geram cada vez mais desigualdade, devem ser aqui considerados (1). Estes problemas que são resultantes de uma situação de expansão de nossa civilização (2) acabaram por provocar um desiquilíbrio entre a biosfera que o homem herdou e a tecnosfera que ele criou. O conflito entre as duas é claro nos dias de hoje e, o homem, tal qual o aprendiz de feiticeiro, está no meio de uma grave crise que ele mesmo provocou e terá de solucionar (3). Uma solução que, segundo Antônio MOSER (4), Fernando BASTOS ÁVILA (5) e Arnold TOYNBEE (6) -, é de natureza ética e técnica e não apenas técnica. Talvez possamos mesmo afirmar com o historiador TOYNBEE, que esta solução é mais ética do que técnica. Também Aurélio PECCEI assinalou isto ao escrever:
"Como pré-requisito, nossas políticas de conservação a longo prazo deveriam ser inspiradas por uma nova ética de vida baseada no reconhecimento de que qualquer dano que causemos à capacidade de sustento de vida do planeta recairá sobre nós e, mais genericamente, que nossa situação e qualidade de vida no futuro dependerão, em um grau nunca antes imaginado, de nossa atitude para com as outras criaturas que povoam a Terra" (7).
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  1. Cf. a respeito, Antônio MOSER - O problema ecológico e suas implicações éticas, pp. 8-10,13; LAROUSSE CULTURAL - Brasil A/Z, p. 275, verbete ecologia; Bill McKIBBEN - O fim da Natureza, pp. 22,25-26, 28-29; Jacques VIDAL - "Ecologie et Religion" in Paul POUPARD - Dictionnaire des Religions, vol. I, pp. 570-572, 1993, p.570.
  2. Barbara WARD e René DUBOS - Uma terra somente, p.47 afirmam: "O certo é que nossas bruscas e amplas acelerações - no crecimento demográfico, no uso de energia e de novos materiais, na urbanização, nos ideais de consumo e na poluição consequente - colocaram o Homem tecnológico num curso que poderia alterar, perigosa e talvez irreversivelmente, os sistemas naturais de seu planeta, dos quais depende sua sobrevivência biológica".
  3. Barbara WARD e René DUBOS - Uma terra somente, p.48. Cf. ainda considerações de Aurélio PECCEI a respeito do conflito entre a biosfera e a tecnosfera em Aurélio PECCEI e Daisaku IKEDA - Antes que seja tarde demais, p.24: "A consequência será uma degradação permanente e cada vez mais grave do nosso ambiente biológico".
  4. Antônio MOSER - O problema ecológico...pp. 69-73.
  5. Pe. Fernando BASTOS DE ÁVILA S.J. - "O desafio ecológico" in CM. Rio de Janeiro, XXIV (285): 11-18, dez. 1978, p.15.
  6. Arnold J. TOINBEE e Daisaku IKEDA - Antes que seja tarde demais, p.24, Cf. para a exigência de uma Ética e dos problemas políticos qua a Ecologia suscita, Jacques VIDAL - "Ecologie et Religion" in Paul POUPARD - Dictionnaire des religion, 1993, Vol. I, pp. 570-572, , p. 571.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ecologia e Ideologia 10:


Continuemos hoje com comentários acerca do livro Nosso Futuro Comum. A idéia básica do documento continua sendo o do crescimento econômico: "Os problemas ligados à pobreza só podem ser resolvidos sob nova era de crescimento econômico. Nenhum país é capaz de desenvolver-se isoladamente porque a base do desenvolvimento sustentável exige fluxos de comércio, de capital e de tecnologia"(1). O livro toca em importantes problemas econômicos e ecológicos como a pobreza, o aumento populacional, a fome, a produção de alimentos, a dívida externa da América do Sul, o nível baixo da tecnologia dos países em desenvolvimento, desmatamento e desertificação branda, moderada e grave, etc. O livro se baseia principalmente em importantes análises de economistas e em dados colhidos com mais de setecentos especialistas ouvidos em todo o mundo. Como vocês poderão notar a partir da análise que estamos fazendo nestas postagens que recebem o título de Ecologia e Ideologia, a Ideologia é um ponto importante não apenas na compreensão dos problemas ecológicos, mas na própria busca de soluções. A verdade é que por trás de certas ideologias está a tentativa de preservação do atual modelo econômico e de desenvolvimento, ao invés de um verdadeiro reaprendizado do que seja a vida. A mudança da própria concepção de mundo é que se faz necessária, mas o homem resiste a isto. Bill McKIBBEN, depois de assinalar que precisamos substituir "uma idéia do mundo por outra" (2). afirma que isto é sempre difícil no ser humano: "Procuraremos qualquer razão para não mudarmos nossas atitudes; a inércia da ordem estabelecida é poderosa. Se pudermos pensar numa razão plausível - ou mesmo implausível - para descartar as adversidades ecológicas, assim faremos"(3). Também o Pe. Fernado de BASTOS DE ÁVILA S.J. critica os anti-valores que norteiam o nosso mundo (altos padrões de consumo, escalada armamentista, exarcebação dos nacionalismos e tentativa de transformar o subdesenvolvimento em uma função permanente) e comenta: "Seria ingênuo, por exemplo, imaginar que os homens aceitassem espontaneamente a modificação de seus padrões de consumo, que se decidissem a buscar novas formas de realização humana e baixos custos ecológicos, numa palavra, a procurar uma alternativa para a sociedade de consumo" (3). Concluindo essa nossa conversa que esteve presente nas dez últimas remessas, diremos que o que se necessita realmente é rejeitarmos o atual modelo de desenvolvimento que levou à existência de países superdesenvolvidos e subdesenvolvidos, com injustiças sociais e depredação do meio-ambiente. Isso já é assunto para os próximos dias onde estaremos escrevendo algo sobre os problemas ecológicos e o juizo ético. _______________________________________________
  1. Glycon de PAIVA - "A Comissão Mundial...", cit., 28.
  2. Bill McKIBBEN - O fim da natureza. p.106. também Antônio MOSER, O problema ecológico... p.71 afirma que o problema "presupõe uma restruturaçãocompleta do modo de viver e relacionar-se, seja com a Natureza, seja com os outros homens".
  3. Bill McKIBBEN - O fim da Natureza, p.190.
  4. Pe. fernando de BASTOS DE ÁVILA S.J. - "O desafio ecológico" in CM. Rio de Janeiro, XXIV (285): 11-18, dez. 1978, p. 16. A busca de uma alternativa para a atual sociedade de consumo parece ser a cada dia, uma necessidade imperiosa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

NEOLIBERALISMO

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Ecologia e Ideologia 9:


A questão ideológica ganha ainda mais importância nos dias de hoje com o surgimento do neoliberalismo. A ideologia neoliberal considera insubstituível a iniciativa individual e a economia de mercado, além do mecanismo livre dos preços (1). A aplicação dos postulados do neoliberalismo na consideração do meio ambiente seria desastrosa pois ele tem como característica a "apropriação privada dos bens públicos" e, considerando "que as condições ambientais são o suporte da vida, apropriar-se destes recursos e gerenciá-los de acordo com interesses privados significa deter o poder de determinar a qualidade e, até mesmo, a possibilidade de vida para uma coletividade"(2). O Neoliberalismo apresentaria assim uma espécie de prolongamentos da ideologia desenvolvimentista e seria tão nocivo quanto este. Outro acontecimento importante para a luta ecológica foi a criaçãod Comissão Mundial sobre Meio-Ambiente e Desenvolvimento em 1983 por iniciativa da Assembléia Geral das Nações Unidas. A presidência da Comissão foi entregue à norueguesa Gro Harlem Brundtland e, depois de estudar os problemas ecológicos durante três anos foi feito um relatório final que foi transformado em um livro intitulado Nosso Futuro Comum e publicado em várias línguas. Esta obra contém importantes colocações, inclusive relacionando o problema da pobreza com a ecologia, mas insiste ainda na noção de um "desenvolvimento sustentável", permanecendo dominado ainda pela ideologia desenvolvimentista. O "desenvolvimento sustentável é aquele que atende à necessidade imediata sem comprometer o futuro" (3). Sobre o problema da relação entre pobreza e neio ambiente aparecem algumas idéias interessante como essa que resolvemos destacar aqui: "Pobreza mundial e, simultaneamente, causa e efeito consequüente a problemas ambientais. por que problemas ambientais do Mundo são a causa essencial da pobreza mundial e da desigualdade internacional"(4). ________________________________________________________
  1. Cf. sobre o Neoliberalismo, Carlos Ruiz DEL CASTILLO - "Neoliberalismo" en DCS, v. II, pp.814-815; Paul HUGON - História das doutrinas econômicas, pp. 162-163; Emile JAMES - O pensamento econômico de século XX, v. I, pp. 255-257; Louis BAUDIN - Estatização ou Economia livre? A aurora de um novo liberalismo, pp. 180-182, 185-192, 205-206.
  2. CNBB - "A Igreja e a questão ecológica", cit., p. 213.
  3. Cf. resumo e citações em Glycon de Paiva - "A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente. Origem e ação" in CM. Rio de Janeiro, XXXV (420): 23-35, março 1990.
  4. Glycon de PAIVA - "A Comissão Mundia...", cit. p..25.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL

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Ecologia e Ideologia 8:


A gravidade do problema que estamos discutindo nessas últimas remessas deste blog mostra as dificuldades que encontramos ao colocarmos a Ecologia e a Ideologia frente a frente. Diríamos que vivemos um tempo que exige a todo instante redimencionamentos nas discussões sobre ecologia. Não se trata mais das realidades como nos primeiros movimentos preservacionistas e ambientalistas surgidos no Primeiro Mundo de uma luta "poética" ou de mera preservação do verde. A luta ecológica é uma luta política, econômica e, sobretudo, ideológica no sentido de ir ao cerne da questão. Como assinalou Ruy MOREIRA, o trabalhador inconscientemente ou não, "reage contra o uso do seu trabalho e da natureza que fazem os que dela se apropriam" (1). A visão é bem diferente da visão tradicional que nos proporciona o "ecologismo", cuja a pregação acabou incorporada pelo sistema dominante. O Terceiro Mundo, no entanto ao buscar um novo modelo mais justo e que ao mesmo tempo preserve a vida e supere a pobreza, pode incorporar algumas das preocupações ambientalistas de movimentos ecológicos europeus que estão na base de muitos problemas angustiantes vividos pelos habitantes do Terceiro Mundo(2). O Brasil na década de 70 mergulhou profundamente no sistema capitalista internacional, seguindo uma política desenvolvimentista. Alguns dos grandes projetos tocados a partir desta política, que aparecem em nossa memória neste momento, como a Hidroelétrica de Tucuruí, a Rodovia Transamazônica, o Polonordeste e outros, provocaram e ainda provocam grandes desastres ecológicos e depredação do meio ambiente (3). ________________________________________________-
  1. Ruy, MOREIRA - "Geografia, ecologia, edeologia a totalidade homem-meio espaço e processo de trabalho" in Geografia Teoria e Crítica. Petrópolis, vozes, 1982.
  2. Maurício, WADMAN - "Ecologia na perspectiva dos trabalhadores" in Tempo e Presença, 230: 4-5, maio 1988.
  3. Flávio LIMONCIC - "Impactos ambientais dos grandes projetos" in Tempo e Presença, 230: 9-10, maio 1988.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A TERRA ESTÁ DOENTE

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Ecologia e Ideologia 7:



O assunto que tratamos em nossa útima postagem acaba por apresentar vários outros problemas - novas peças para o mesmo jogo. Em primeiro lugar os países industrializados que produziram grande parte da atual contaminação do meio ambiente não querem diminuir as suas riquezas e mudar o estilo de vida dos seus habitantes e acenam para os países subdesenvolvidos procurando mostrar a sua responsabilidade na preservação do meio ambiente. Os países subdesenvolvidos temem criar obstáculos às suas economias em crescimento e exigem cada vez maior ajuda econômica para tomar medidas ecológicas (1). Nos países do Primeiro Mundo, os organismos ambientalistas e de defesa dos povos indígenas pressionam para que as instituições multilaterais de desnvolvimento condicionem a aprovação dos empréstimos à adoção de medidas de preservação do meio ambiente (2).
Seguindo essa linha, instituições como o Bird e o BID condicionam a liberação de fundos para o desenvolvimento às questões ambientais (3), utilizando a ecologia como pretexto para o monitoramento e uma ingerência nos países subdesenvolvidos. A própria "ajuda" dos países ricos aos subdesenvolvidos tem ficado bem abaixo do necessário (4).
A verdade é que os problemas ecológicos vão exigindo uma remodelação de nossas idéias e a derrubada de certas ideologias. A partir de um relatõrio do Clube de Roma (1972) já se admitiam Os limites do crescimento (5) e muitos ecologistas já se questionam sobre a existência do próprio futuro devido ao fato de Gaia (a Terra) estar doente (6).

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  1. Bil Mc KIBBEN - O fim da natureza. p. 194 assinala que 0 "pensamento de que as pessoas que vivem na pobreza, quer seja a pobreza desesperada ou apenas a pobreza deprimente reprimam seu desejo de uma vida marginalmente melhor só por causa de algo como o efeito estufa é absurdo".
  2. Steve SCHWARTZAWAN - "Desenvolvimento, meio ambiente e povos indígenas" in Tempo e Presença, 230: 11-13, maio de 1988.
  3. Mary Helena ALLEGRETTI - "Natureza e política externa brasileira" in Tempo e Presença, 230: 14-15, maio 1988.
  4. G. BARRACLOUGH e G. PARKER - Atals da história do mundo, 295.
  5. D. MEADOWS et al. - Limite do Crescimento. São Paulo, Perspectiva, 1972.
  6. Cf. J. LUTZEMBERGER - Fim do futuro? (manifesto ecológico brasileiro). Porto Alegre. Editora Movimento, 1980; IDEM - Gaia, o planeta vivo (por um caminho suave). Porto Alegre, L & PM, 1990.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ecologia e Ideologia 6:


O Movimento Ambientalista Latino-Americano que vem se desenvolvendo a partir de 1980 defende não apenas os valores ecológicos de conteúdo universal (harmonia do ser humano com a Natureza, valorização dos diversos ecossistemas e da vida), mas vai além e possui uma preocupação ética, além de vincular os problemas sociais e ambientais(1). A defesa de uma Ecologia social e, consequentemente de uma educação nova que tenha um enfoque ecológico social (2) representa um passo à frente e serve de base à formação de uma verdadeira ideologia latino-americana que se contraporia às ideologias do Primeiro Mundo. A Confereência da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92) que foi realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992 mostrou claramente as profundas divergências entre as nações pobres e ricas e, o quanto o tema da ecologia, pode estar carregado de Ideologia. Embora estivesse grande adesão de governos [185] e a participação de mais chefes de Estado [131] de que em qualquer outro encontro internacional anterior e, apesar de terem sido debatido temas importantes e variados como a poluição, a mudança de clima (3), a pobreza, o meio ambiente, a fome, a enfermidade, o analfabetismo e a preocupante deterioração dos ecosistemas, as conclusões do Programa 21 que foi aprovado e que mostrava a necessidade de cooperação de todos os países (4), não foram inteiramente aceitas pelos países desenvolvidos. O problema da biodiversidade e o direito dos países subdesenvolvidos de conseguirem um reconhecimento mundial e um ressarcimento financeiro pela utilização por parte dos países ricos de seus recusrsos de grande importância medicinal, encontraram forte oposição por parte dos Estados Unidos, embora aqui estivesse presente o então senador e atual vice-presidente Al Gore, que possui preocupações ecológicas. ______________________________________________________
  1. E. GUDYNAS - "O Movimento Ambientalista Latino-Americano: múltiplas sementes de mudança" in REB, 52 (205): 45-63, março 1992.
  2. Cf. Cecília VON SANDEN - "Uma perspectiva da Educação da Educação em Ecologia Social" in REB, 52 (205): 75-83, março 1992. pp. 78-82; Ellen Regina Mayhé NUNES - "Educação ambiental:princípios e objetivos" in Revista de Educação AEC. Brasília, 17 (68): 19-28, abr.- jun. 1988; A. LAGO e J.A. Pádua - O que é Ecologia. São Paulo, Brasiliense, 1984.
  3. Geoffrey BARRACLOUGH e Geoffrey PARKER (org) - Atlas da história do Mundo. p.295.
  4. Geoffrey Parker - Atlas da História Universal, p.305.

AMAZÕNIA PARA SEMPRE:

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ecologia e Ideologia 5:


Amazônia. Um caso particular que queremos apresentar aqui hoje. Este caso é particular pela verdadeira batalha que travam os grupos de ecologistas e ambientalistas estrangeiros com os brasileiros partidários da exploração racional das riquezas ali contidas. Em artigo datado de 12 de fevereiro de 1995 e publicado no caderno Mais! da Folha de São Paulo, Janer CRISTALDO, doutor em letras francesas pela Sorbonne Nouvelle e jornalista, denubcia um plano de organismos internacionais para a formação de uma verdadeira "teocracia" na Amazônia. Segundo o jornalista, que cita inclusive trechos de um documento intitulado "Diretrizes brasil nº4 - Ano 0" produzido sob os auspícios do Christian Chuch World Council e publicado na revista "Afinal" (11/04/80), os participantes de um simpósio realizado na Suiça, depois de considerarem a Amazônia como "patrimônio da humanidade" recomendava que se impedisse ali qualquer exploração dos recursos da região e indicavam: "É nosso dever garantir a preservação do território da Amazônia e de seus habitantes aborígenes, para o seu desfrute pelas grandes civilizações européias, cujas áreas naturais estejam reduzidas a um limite crético" (grifo nosso).
Concluindo, o autor mostra que se o governo brasileiro não tomar providências, a região que possui "o mais rico subsolo da América Latina" ficará de posse não dos indígenas, mas dos Estados Unidos e países europeus (1).
O documento citado pelo jornalista indica que nem sempre os movimentos conservacionistas e ambientalistas do Primeiro Mundo possuem objetivos apenas ecológicos ou estão imunes à ideologia com a qual as nações do norte procuram subjugar as do sul. Estas, no entanto, começam a reagir e a elaborar a sua visão da Ecologia que coloca no centro a Ecologia social e a busca de uma ética sócio-ambiental. José Ramos REGIDOR fala em uma reconversão sócio-ecológica da sociedade, que deve ser uma reconversão profunda no sentido de rejeitar a ideologia desenvolvimentista e criar uma sociedade sustentável, "socialmente justa e ecologicamente sadia"(2).

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  1. Janer CRISTALDO - "Uma teocracia na Amazônia" in Mais! Folha de São Paulo de 12 de fev. 1995, caderno 6,p.3.
  2. J. R. REGIDOR - "Ressarcir dos povos..." in REB, 52, pp. 24-27.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O DIA DA TERRA:

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Ecologia e Ideologia 4:


Os movimentos ecológicos nem sempre possuem uma mesma base ideológica. Aqueles movimentos que operam no Primeiro Mundo só questionam aspectos do sistema dominante, mas não questionam a tecnologia e nem a visão antropocêntrica. No Terceiro Mundo se fala na ligação entre Ecologia e justiça social, tratando-se assim da Ecologia Social, de uma Ética sócio-ambiental , partindo para uma visão biocêntrica (1). As análises a partir do Terceiro Mundo procuram corretamente chamar a atenção para o problema da pobreza como básico de qualquer política mundial (2) e ligam mesmo a pobreza com a ecologia, pois nada é menos ecológico do que a pobreza. As diferenças de enfoque entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo são significativas, brutais. Quando elementos do terceiro Mundo são censurados por movimentos ambientalistas do Primeiro Mundo por atentarem contra a natureza, isto pode parecer muitas vezes como conspiração sinistra dos países ricos para manter o status quo e, impedir que as populações do Terceiro Mundo saiam da situação de pobreza ou mesmoda miséria absoluta. Isso porque em muitos casos, o que no Primeiro Mundo seria apenas uma simples limitação do excesso de consumismo, no Terceiro mundo seria negar a populações pobres o mínimo necessário para a simples sobrevivência. Portanto, a tese veiculada a partir do Primeiro Mundo de que é necessário colocar um freio no desenvolvimento e no consumo pode parecer ideologicamente suspeita (3) e, é desta maneira que vem sendo recebida. ____________________________________________________
  1. A. MOSER - "Ecologia: Perspectiva Ética" in REB, 52 (205), pp. 10-11; J. P. S MARTINS - Ecologia ou morte. Os cristãos e o meio ambiente. São Paulo, FTG, 1987; E. GUDYNAS - "Étca Ambiente e Ecologia: uma crise entrelaçãda" in REB, 52 (205): 64-74, março 1992.
  2. Leonardo BOFF - "Os pobres como baricentro de uma possível política mundial" in Revista Vozes, 85: 438-451, 1991.
  3. A.MOSER - "Ecologia: Perspectiva Ética" in REB, 52 (205), p.10.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

TRÊS ERRES:

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Ecologia e Ideologia 3:


A ideologia elaborada no Primeiro Mundo não leva em consideração o Terceiro Mundo, pois falta a seus formuladores uma visão holística que englobaria a tudo e a todos. A visão da terra como um todo e do destino comum do ser humano e da natureza requer esta visão holística (1) e também pressupõe uma mudança fundamental na própria mentalidade do ser humano que precisa aprender a limitar os seus desejos. Desta forma teríamos três ecologias que seriam a ecologia mental (o ser humano reconciliado consigo mesmo), a ecologia social (o ser humano convivendo em harmonia com os seus semelhantes) e uma ecologia ambiental (o ser humano convivendo em harmonia com os demais seres). Com estas três ecologias e o respeito do homem por seus semelhantes e pelos outros seres, poderíamos entrar em uma era na qual a felicidade de todos seria a tônica (2). Nas áreas econômicas e políticas aparecem medidas de aparente sensibilidade e inspiradas por preocupações ecológicas, mas que na verdade não contestam a ideologia desenvolvimentista ou tentam conciliar esta com as propostas ecológicas. Surgem assim expressões como "ecodesenvolvimento", "eco-políticas" ou "eco-tecnologia" que procuram levar em conta o fator e os problemas ecológicos, mas mantendo a concepção do desenvolvimento. A ligação entre Ecologia e política levou até ao aparecimento dos partidos Verdes que levaram até ao campo político questões como degradação ambiental (com a poluição, doeças, etc.), a necessidade de preservar a natureza e conservar o nosso planeta (3). ________________________________________________________
  1. Cf. R. CREMA - Introdução à visão holística. São Paulo, Summus, 1988; P. A. WEIL - A Consciência Cósmica. Petrópolis, Vozes, 1978; IDEM - Holística: uma nova visão e abordagem do real. São Paulo. palas Athenas, 1990.
  2. Cf. a respeito, F. GUATARI - As três Ecologias. Campinas, Papiros, 1988.
  3. Cf. a respeito, H. R. LEIS et al. - Ecolgia e política mundial. Petrópolis, Vozes, 1991; J. A. Pádua (org) - Ecologia e política no Brasil. Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1987; C. BENJAMIN - "Nossos verdes amigos X verdes revolucionários" in Teoria e Debate, 12: 6-21, 1990.

domingo, 25 de outubro de 2009

EFEITO ESTUFA:

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Ecologia e Ideologia 2:




Os grupos econômicos que dominam o sistema internacional utilizam-se assim de mil expedientes para ocultar a dramática realidade de nosso mundo e não hesitam em passar uma tintura ecológica para encobrir a verdadeira situação (1). Desta forma, temos que ficar atentos ao fato de que muitas posições ecológicas aparentemente corretas são apenas posições que nasceram no Primeiro Mundo em meio ao bem-estar geral e, por isso mesmo não questionam inteiramente o sistema como um todo. Apenas a crise ecológica veio colocar em dúvida a ideologia desenvolvimentista que pregavaum processo linear e infinito e, a certeza de que certos recursos não são ilimitados produziu esta conversão aos temas ecológicos e uma tentativa de limitar estes desenvolvimentos (2). Os países industrializados são hoje responsáveis por 80% da poluição da terra, a consciência ecológica que foi sendo formada levou a proposição de algumas saídas como o conservacionismo e o ambientalismo, que não questionam o modelo de desnvolvimento e de sociedade e nem realizam uma crítica dos paradigmas de desenvolvimento e de consumo que levam a esta situação. A visão assim elaborada no Primeiro Mundo é egoísta e interesseira e, "Não merece o nome de ecológica, porque não é inclusiva, especialmente do ser mais complexo e também mais responsável da criação: o ser humano" (3). ___________________________________________________
  1. Cf. Antônio MOSER - O problema ecológico e suas implicações éticas. pp. 69-70; IDEM - "Quando a ecologia se faz ideologia" in Revista de Educação AEC. 17 (68): 9-13, 1988, p.13; C.MINC - Como fazer movimento ecológico e defender a natureza e as liberdades. Petrópolis, Vozes, 1985; J. M. A. LIMA - Ecologia human. Realidade e pesquisa. Petrópolis, Vozes, 1984.
  2. A. MOSER - "Ecologia: perspectiva Ética" in REB, 52 (205): 5-22, mar. 1992, p.8.
  3. Leonardo BOFF - Ecologia, mundialização... pp.20-21.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ecologia e Ideologia 1:



O termo francês idéologie foi criado em 1976 por Antoine DESTUTT DE TRACY (1754-1836) para designar uma disciplina filosófica que seria a base de todas as demais ciências(1). A partir desta data até os dias de hoje o termo Ideologia foi definido de várias maneiras, sendo uma das melhores conceituações a de J.GOULD no Dicionário de Ciências Sociais: "Ideologia é um conjunto de convicções e conceitos (concretos e normativos) que pretende explicar fenômenos sociais complexos com o objetivo de orientar e simplificar as escolhas sócio-políticas que se apresentama indivìduos e grupos" (2).
O conceito de J. GOULD tem a vantagem de resumir as diversas conceituações de Ideologia e, serve desta forma ao nosso propósito aqui neste
blog que é relacionar Ecologia e Ideologia. E, no relacionamento devemos considerar aqui as ideologias que estão por trás dos grandes problemas ecológicos em um primeiro nível e, as ideologias que estão por trás dos enfoques ecológicos em um segundo nível, pois também os grupos de defesa do meio ambiente e da natureza possuem a sua ideologia e, muitas vezes, por trás de uma aparente defesa da Ecologia estão interesses de grupo econômicos, notadamente aqueles que exploram o Terceiro Mundo. A verdade é que por trás dos problemas ecológicos existem aspectos profundamente ideológicos devido ao fato de existirem grandes interessses em jogo. A sociedade que criamos (ou que nossos antepassados criaram) dominada pela visão antropocêntrica do mundo e pela ideologia do desenvolvimento e do progresso. Esta ideologia toma uma forma mais acabada nos meados do século XX e vincula-se ao Imperialismo e a hegemonia norte-americana. Ela promete uma vida de bem-estar e de consumo e considera a natureza apenas como um manancial de recursos a ser apropriado e comercializado (3). ______________________________________________________
  1. Cf. B. LAMOUNIER e R. FAORO - "Ideologia" in EMI, XI, pp. 5950-5954; J. f. MORA - dicionário de Filosofia, v. 1, p. 906.
  2. J. GOULD - "Ideologia" in DCS, pp. 570-571, esp. p. 570.
  3. CNBB - "A Igreja e a questão ecológica", cit., pp.211-212.

Comercial 30" sobre Aquecimento Global

Comercial Experimental de 30" realizado por estudantes das Faculdades Integradas Curitiba de Publicidade e Propaganda sobre o tema AQUECIMENTO GLOBAL.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ecologia e Teologia 6:


A partir do que comentamos ontem o homem incia a devastação da natureza e visa o "progresso" a todo custo. Ele passa a explorar a natureza e até o seu semelhante. O pecado se instala no coração do homem e no mundo(1). A harmonia é que acaba quebrada e a desarmonia acaba reinando por toda parte. O homem na medida em que perverte o sentido da Criação e se deixa levar pela ganância desenfreada acaba vendo o grande progresso da tecnologia moderna voltar-se contra si próprio. A análise teológica mostra que o mundo não pertence ao homem, mas a Deus que é o seu Criador. O próprio mundo foi dado ao homem como jardim ao qual cabia cultivar e zelar. A responsabilidade que o homem possui com a Criação deve ser de responsabilidade o que implica uma relação ética(2). É assim que no "coração da consciência ecológica há, sem dúvida, uma preocupação ética que atua; através da idéia de uma gestão global de todo o projeto transformador da tecno-ciência, é a responsabilidade do ser humano em relação à sua própria existência que se afirma, numa radicalidade que se quer à medida de desafios"(3) Esta nova Ética que surge a partir do século XX e, notadamente a partir do Concílio Vaticano II baseia-se nas preocupações terrestres e tem em seu pensamento a historicidade como categoria básica. Esta ética é constituida na e pela história distinguindo-se assim da Ética cristã anterior(4). A Teologia e a Ética, como vimos, fornecem importante base para a solução dos problemas ecológicos, mas nas próximas postagens dedicaremos nossa atenção a outro importante componente do título deste Blog: o Ideológico. __________________________________________________________
  1. Antônio MOSER - "Ecologia: desafio teológico e ético", cit. p.48; Cf. também A. MOSER - "Situação de pecado" in R.E.B, dez. 1978 pp.672-680.
  2. Leonardo BOFF - Ecologia, mundialização. p. 48.
  3. Jean LADRIÉRE - "Ecofilosofia: um Terceiro Mundo" in Revista de Educação AEC. Brasília, 17(68): 14-18, abr.-jun. 1988 p.18.
  4. Cf. A. MOSER - "Novas Inquietações na Teologia Moral" in REB. Petrópolis, 40: 252-261, junho 1980; J. WALGRAVE - "Moral e Progresso" in Concilium, 5: 27-39, 1965; I.LOBO - "Para uma moral no sentido da História. A condição e a renovação da moral" in Concilium, 25: 29-48, 1967.

Video: Mundo

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O aquecimento global não é um fenômeno natural, mas um problema criado pelos homens. Qualquer pequena tora de madeira, cada gota de óleo e gás que os seres humanos queimam são jogados na atmosfera e contribuem para as mudanças climáticas.

Essa é a mensagem de Mundo, o primeiro vídeo da trilogia Pense de Novo. Confira e deixe seu comentário!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ecologia e Teologia 5:


Mas é na análise do problema da Criação que a Teologia fornece-nos importante chave para o melhor entendimento dos problemas ecológicos. Deus criou o mundo e o confiou ao homem, mas este acabou por desarticular os planos de Deus, substituindo-os por seus próprios planos egoístas. Mas, ao contrário da leitura antropocêntrica da Bíblia que coloca o homem como "Senhor do universo" ou "Rei da criação" (1), na verdade o homem é apenas participante da Criação. O "ser humano e o mundo não podem ser pensados separadamente", pois ambos "fazem parte do processo dinâmico da obra criadora, como projetos indissociaáveis. A transformação do Caos primitivo em um Cosmos da-nos a dimensão da criação, não tanto no sentido paradisíaco e harmônico, mas como um processo que não dispensa a responsabilidade humana"(2). Podemos dizer, concordando com um autor, que a primeira Criação foi traída pelo homem (3). A Criação realizada por Deus não poderia ser disvirtuada assim pelo homem, pois além de Criador, Deus seria também o grande conservador do mundo e dos seres em sua existência. Ele demonstra uma atividade criativa incessante, o que sinaliza a sua vontade de conservar o mundo e a natureza(4).Atrás dos problemas ecológicos teríamos na verdade a perda do sentido profundo da Criação. Estes problemas seriam, em uma leitura teológica, principalmente problemas de relacionamento do homem com Deus. Problemas do homem que destruindo a criação ignora os planos de Deus e os substitui pelos seus próprios (5). ______________________________________________________________
  1. Cf. Antônio MOSER - O problema ecológico...p.39.
  2. Frei Nilo AGOSTINE, O.F.M. - "Ecologia: desafio Ético-Teológico" in Revista Grande Sinal. Petrópolis, mai. - jun. 1992, pp.261-273,esp. pp.269-270.
  3. Lori ALTIMANN - "Ecologia: cuidar da própria casa" in Tempo e Presença, 230:32-33, maio 1988.
  4. INSTITUTO DIOCESANO DE ENSINO SUPERIOR DE WURZBURG - Teologia para o Cristão de Hoje. v. III, pp.152-154.
  5. Antônio MOSER - "Ecologia: desafio teológico e ético" in Revista Vozes. Petrópolis, LXXIII (1), p.46, jan.-fev. 1979; IDEM - "Quando a Ecologia se faz Ideologia" in Revista de Educação AEC, 17 (68): 9-13, abr.-jun. 1988 p. 11 indica: "os seres humanos esquecem donde vieram e para onde devem caminhar. Derrubam os projetos divinos e estabelecem seus projetinhos egoístas. Em vez de um sistema solidário, criam um sistema solitário".

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Vídeo: Dinheiro não é Deus.

video

Ecologia e Teologia 4:


Em um segundo relato da criação (1), Deus cria o homem com a argila do solo (ver nota t da Bíblia de Jerusalém: O homem, Adam, vem do solo, Adamah) e planta um jardim no Édem colocando o nele o homem. O ser humano passa a ter a responsabilidade de "guardar" e "cultivar", ou seja transformar a criação (2).
No tempo dos profetas já aparece a relação intensa entre a humanidade e o meio ambiente. Nos séculos IX-VII a.C a devastação da terra pelo homem indica também o desrespeito pela criação e pelo próprio ser humano. Como salientou com pertinência uma autora, os profetas consideravam que "a exploração do homem pelo homem gera a aexploração da natureza e sua devastação"(3).
Em outras passagens da Bíblia tirada de (4), do Êxodo (5), ou do Dêutero-Isaías (ISAÌAS 40-55) na Época do Cativeiro babilônico (587-538 a.C) (6), a libertação de Israel está sempre relacionada com a natureza. É que "libertação e ecologia exigem-se, explicam-se, complementam-se. São inseparáveis. Não há contradição. A natureza astá aí para servir à vida e à liberdade do povo, de todo o povo"(7).

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  1. GÊNESIS 2: 4b-3:24 (A Bíblia de Jerusalém, pp.34-35).
  2. CNBB - "AIgreja e a questão Ecológica", cit., p.220. Cf. ainda Ana Maria Rizzante GALLAZZI - "E Javé passeava pelo Jardim (Gn 3,8)" in Estudos Bíblicos, 38:29-38, 1993 pp. 30-31.
  3. Tea FRIGERIO - "Esboço de uma reflexão bíblica sobre o meio ambiente" in Estudos Bíblicos, 38:39-47, 1993, p.41 Cf. ainda Antônio CRUZ e Airton OTÁVIO - "O profeta Elias e a seca: uma questão ecológica" in Estudos Bíblicos, 38: 23-28, 1993.
  4. Bill McKIBBEN,O fim da natuereza, p.80 afirma: "O Antigo Testamento apresenta em muitos trechos, mas especialmente no livro de Jó, algumas das mais veementes defesas já escritas da região selvagem, da natureza livre da mão do homem. Os argumentos vão ao cerne do que a perda da natureza significará para nós".
  5. Êxodo 7-9; 14: 28-30; 15:25; 16:13-30
  6. ISAÍAS 41:41: 18-20; 44:23; 49:13
  7. Luis MOSCONI - "...E todas as árvores baterão palmas (Is 55,12)" in Estudos Bíblicos 38: 48-52.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ecologia e Teologia 3:


Como comentamos ontem, o antropocentrismo exagerado que tomou a sua forma mais avantajada a partir da época moderna inspirado na filosofia e nas ciências e, ligado aos nomes de Francis BACON (1561-1626), René DESCARTES (1596-1650), Calileu GALILEI (1564-1642) e Isac Newton (1642-1727) o homem passa a ser o centro, o senhor e o dono da natureza "podendo utilizá-la e explorá-la como se fosse um objeto e um recurso inexaurível". A ideologia daí derivada foi "um modo de ver a realidade vinculado ao modo de produzir e de consumir, à prioridade do lucro, ao industrialismo e à ideologia do progresso entendido como crescimento econômico ilimitado. Pode-se pois dizer que nesta concepção surge e se justifica o modo de viver, de produzir e consumir que é a raiz da crise ecológica e da crise social, que destrói os povos e a natureza"(1). O papel da Igreja cristã na crise ecossocial é reconhecida em parte em um documento da própria CNBB intitulado A Igreja e a questão Ecológica quando, afirma: "...Podemos falar de cumplicidade, consciente ou não, da fé judaico-cristã, das igrejas, da teologia no processo de devastação do meio ambiente. Pois no curso da história, foi comum recorrer-se aos textos sagrados da Bíblia para legitimar uma apropriaçãoe exploração utilitarista da natureza"(2). Também o relatório final da VIII Assembléia do Conselho Ecumênico das Igrejas, camberra, no ano de 1990 assinalava: "Quanto mais a teologia insistia sobre a transcendência de Deus e sobre a sua distância do mundo material, tanto mais a Terra era entendida como um simples objeto de exploração humana e como uma realidade 'não-espiritual'" (3). A leitura teológica torna-se assim essencial para a própria mudança de atitude do ser humano em relação à Ecologia e na consideração da própria visão antropocêntrica e da ideologia desenvolvimentista. Também em outras passagens do Gênesis temos outras leituras possíveis que a antropocêntrica ou a utilitária. Deixemos esse assunto para a postagem de amanhã. __________________________________________________________
  1. José Ramos REGIDOR - "Ressarcir os povos e a natureza. Em busca de uma reconversão sócio-ecológicada sociedade" in REB. Petrópolis, 52 (205): 23-44,mar 1992,pp.39-40.
  2. CNBB - "A Igreja e a questão Ecológica" in Revista SEDOC. set. - out. 1992, pp.206-228, esp. p..218.
  3. Leonardo BOFF - Ecologia, mundialização e espiritualidade. p.77.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ecologia e Teologia 2:


A atitude das religiões nem sempre foi de preservação da natureza. Embora o Budismo ensinasse que a relação entre o homem e a natureza não fosse de oposição, mas de dependência mútua (Esho Funi) (1) o historiador inglês TOYNBEE chamou a atenção para o fato de que foi uma religião, o monoteismo judaico, que abriu o caminho para depredação do meio ambiente:

"Considerava-se o homem e a natureza não humana como criados por esse Deus hipotético, numa analogia com a criação de ferramentas, obras de arte e instituições por seres humanos. Admitiu-se que o Criador tinha o poder e o direito de dispor do que criara. Segundo o Capítulo I, versículos 26-30 do Livro de Gênesis, Deus pôs toda a criação não humana à disposição de suas criaturas humanas a fim de que a explorasse segundo o seu bel-prazer"(2)

O texto de gênesis acabou sendo interpretado de forma literal, principalmente as palavras "submeter" e "dominar" e, desde a época de grandes filósofos como São Tomás de AQUINO (1225-1274), Francis BACON (1561-1626) e René DESCARTES (1596-1660) o homem foi considerado como dominador e escravizador das forças da natureza, com direito de saquear a terra (3).

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  1. Arnold TOYNBEE e Daisaku IKEDA - Escolha a vida, p.37.
  2. Arnold TOYMBEE e Daisaku IKEDA - Escolha a vida, p.39. O texto que o autor faz alusão, Gênesis, I:26-30 é o seguinte: "Deus disse: 'Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra', Deus disse: 'Eu vou dou todas as ervas que dêem sementes, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dêm sementes: isso será nosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas' e assim fez" (A Bíblia de Jerusalém, p.34).
  3. Cf. Leonardo BOFF, Ecologia, mundialização e espiritualidade. pp. 46-47 para a crítica desta posição. Ake HULTKRANTZ - "Ecology" in E.R., v.IV, p. 581 mostra que esta atitude em relação à natureza só foi rompida pela primeira vez em 1864 com o livro de George P. MARSH, Man and Nature. Também Zwinglio Mota DIAS acha que a passagem do Gênesis só pode ser interpretada relacionando-a com Êxodo. Cf. "Do Êxodo libertador à visão da Criação: uma proposta de vida" in Tempo e Presença. rio de Janeiro, 230: 26-27, maio 1988.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ecologia e Teologia 1:


A perspectiva teológica é importante para se abordar os problemas ecológicos. A "teologia" em sentido lato seria a ciência de Deus. Mas, em sentido subjetivo seria a ciência que Deus mesmo possui de si mesmo e do universo criado, comunicando aos homens através da graça. Em sentido objetivo, ela seria a ciência que tem a Deus por objeto (1). A partir do Concílio Vaticano II a Teologia passou a procurar a própria identidade, relacionando-se com o mundo e as outras ciências. Ele passou então a dividir-se geralmente em um discurso sobre Deus (teologia) e um discurso a respeito do homem diante de Deus (antropologia)(2). Na verdade, como salientou com pertinência Leonardo Boff, a "teologia é uma só", mas "existem várias formasde realizar historicamente a tarefa teológica"(3). A teologia que a igreja e a própria situação do homem requerem atualmente seria uma teologia baseada no amor ao próximo, na justiça e, no qual Deus apareceria como "libertador dos oprimidos"(4). Dentro desta visão, a teologia ao relacionar-se com a ecologia procuraria realizar a leitura dos problemas ecológicos à luz da fé, da religião, relacionando estes problemas com os designos do Criador em relação ao mundo por ele criado (5) e visando a uma verdadeira libertação do homem.
A Relação entre Ecologia e religião foi estudada principalmente a partir de 1960., quando o movimento ecológico ganhou um grande destaque mundial. Um grande movimento de preservação da natureza contou a presença e apoio de religiosos (6), mas foi um movimento de caráter apenas de conservação da natureza, sem questionar seriamente o proprio sistema econômico.

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  1. René LATOURELLES S.J. - Teologia, ciência da salvação, p.11.
  2. Cf. B. LAMBERT - "Les deux demárches de la théologie" in N.R.TH., 89: 257-280, 1967.
  3. Leonardo BOFF - Igreja: carisma e poder, p. 29
  4. Cf. Leonardo BOFF - Teologia do cativeiro e da libertação. Petrópolis, 1980.
  5. Winston L. KING - "Religion" in E.R., v.XII, pp.282-293; Michael DESPLAND - "Religion" in P. POUPARD - DR. v.II, pp.1684-1689.
  6. Cf. a respeito do tema Ake HULTKRANTZ - "Ecology" in Mircea ELIADE (ed) - E.R., v.IV pp.581-585, 1986; Gordon D. KAUFMAN - "A Problem for Theology: The Concept of Nature" in HTR,, 65: 337-366, 1972.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ecologia e Ética. Generalidades:


A unidade básica em Ecologia é o ecosistema (1). Ele consciste numa "rede complexa de relações de mútua influência entre a flora, a fauna e os microorganismos de uma determinada área ou região e todos os elementos físicos naturais (geológicos, climáticos, etc.)"(2). O ecossistema é relativamente autônomo e apresenta um equilíbrio dinâmico interno. Ele pode ser tão pequeno quanto um lago em um jardim ou tão grande quanto o planeta Terra (ecossistema global ou biosfera), ou ainda uma floresta tropical ou de carvalhos (3), ou mesmouma árvore apenas que usa a energia do sol em conjunção com os minerais do solo para produzir os seus tecidos através de fotossíntese. A Ética pode ser definida como a "ciência categoricamente normativa dos atos humanos, à luz da razão natural"(4). A ética traça assim normas e imperativos para o comportamento moral do homem, tratando assim entre outras coisas, da origem e da natureza da lei moral, de virtude e de felicidade(5). Embora aparentemente afastadas, Ecologia e Ética possuem uma aproximação etimológica, pois enquanto Ecologia refere-se a "oikos", a "casa do homem", a Ética também designa "a morada do homem" (6). Mas, alem desta aproximação etimológica importante, Ecológia e Ética também devem andar juntas diante do desafio de manter a possibilidade da vida sobre a terra. _________________________________________________________
  1. Eugene P. ODUM - Ecologia, p.27
  2. Nova Enciclopédia Ilustrada Folha, I, p. 282
  3. Nova Enciclopédia Ilustrada Folha, I, p.283 (verbete "Ecossistema" com diagrama).
  4. Definição citada em Antônio MOSER - O prblema ecológico e suas implicações éticas, p.11.
  5. Cf. a respeito, Batista MONDIN - Curso de Filosofia, v. I, p.9; Nova Enciclopédia Ilustrada Folha, vol.I, pp.323-324; José Ferrater MORA - Dicionário de Filosofia, v.I, pp.594-599 iguala a ética à Filosofia moral (p.595), verbete "Ética"; Alan Gewirth - "Ethics" inE.B., v.VI, pp. 976-998, 1974, p. 976. Cf. para a relação entre conduta moral e religiosa, Ronald M. Green - "Morality and Religion" in Mircea ELIADE 9editor) - E.R., v. X, pp.92-106, 1986-1987.
  6. Antônio MOSER - O problema ecológico...p.12.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ecologia e Ética. Generalidades:



A relação entre Ecologia e Ética não parece à primeira vista ser algo provável. Elas parecem ocorrer paralelas e sem nenhuma afinidade. O termo Ecologia foi cunhado em 1966 pelo biólogo alemão Ernst HAECKEL (1834-1919) e é composto de duas palavras gregas: oikos, que significa "casa" e, logos que significa "reflexão ou estudo". Na definição de HAECKEL, "ecologia é o estudo da interdependência e da interação entre os organismos vivos (animais e plantas) e o meio ambiente (seres inorgânicos). (#) A ecologia seria assim, em resumo, a ciência do meio ambiente (*) que estudaria as relações deste meio ambiente com os organismos vivos. Ela englobaria duas divisões básicas: a auto-ecologia que estudaria a ecologia de apenas uma espécie; e a sinecologia que é o estudo da ecologia de eco-sistemos completos.(&) ________________________________________________________________ (#) Citado em Leonardo BOFF - Ecologia, mundialização e espiritualidade, p.17. Roger DAJOZ - Ecologia Geral,pp. 13-14 depois de mostrar que a Ecologia significa literalmente "Ciência do Habitat" (pp.13-14) define "a ecologia é a ciência que estuda as condições de existência dos seres vivos e as interações, de qualquer naturez, existentes entre esses seres vivos e o seu meio"(p.14) (*) E.BONÉ - "Pour une 'Theolgie de L'environnement" in RTL, Louvain, II: 141-165, 1971 p.146. (&)Cf. Nova Enciclopédia Ilustrada Folha, p. 281